12-12-2025 16:13

Muitas vezes, quando pensamos em preparar crianças e jovens para o mercado de trabalho, imaginamos cursos, formações, aprendizagens técnicas… porém, esquecemo-nos que algumas das competências mais determinantes – responsabilidade, autonomia, capacidade de cooperar, resiliência e gestão do tempo – nascem nas rotinas mais simples do quotidiano familiar. E é justamente através das tarefas domésticas que estas aprendizagens começam a ganhar forma. Quando uma criança é convidada a participar na organização doméstica, não está apenas a «ajudar». Está a aprender que faz parte de um sistema onde todos têm direitos, mas também deveres. Está a compreender que o seu contributo importa, que existe um impacto direto entre a sua ação e o bem estar coletivo. Esta perceção, aparentemente pequena, é uma das bases mais sólidas para construir pessoas adultas conscientes, cooperativas e responsáveis em contexto laboral. As tarefas domésticas permitem também, uma aprendizagem que nenhuma formação teórica consegue transmitir com tamanha profundidade: o valor do compromisso. Ao arrumar o quarto, ao cuidar do seu material escolar, ao colocar a mesa ou ao prestar cuidados a um animal doméstico, a criança experimenta o significado de cumprir uma tarefa do início ao fim, mesmo quando não apetece. E no mundo do trabalho, esta capacidade de persistir, concluir e assumir responsabilidades é uma das qualidades mais procuradas e diferenciadoras. Para além disso, o simples exercício de gerir e conciliar horários – escola, atividades extra curriculares, descanso, atividades sociais e tarefas – constrói outra competência fundamental: gestão do tempo. Em casa, de forma natural e sem pressão, as crianças aprendem a organizar-se, a priorizar tarefas/atividades e a lidar com imprevistos. São competências que, mais tarde, fazem diferença no contexto profissional onde se exige flexibilidade, foco e capacidade de adaptação. Outro aspeto fundamental é a autonomia. Quando a criança percebe que consegue fazer algo por si mesma, sem supervisão constante, abre-se um espaço de confiança que a acompanha para a vida inteira. Esta auto confiança não nasce de grades desafios, mas de pequenas conquistas: dobrar roupa, preparar um lanche simples, arrumar livros, gerir o seu espaço. Cada uma destas ações consolida a ideia de «eu sou capaz», que é uma das bases do sucesso no mundo laboral e na vida adulta. Ao já referido, junta-se um elemento chave nas relações humanas: o trabalho em equipa. As tarefas partilhadas entre irmãos, pais, mães e filhos ou filhas – nem sempre fáceis, nem sempre perfeitas – oferecem valiosas lições sobre comunicação, paciência, respeito pelas diferenças e cooperação. Dentro de casa, aprende-se que trabalhar com outras pessoas implica negociar, esperar, ajustar estratégias e, por vezes, ceder. Estas competências são fundamentais em qualquer equipa de trabalho, em qualquer área profissional. Por último, as rotinas familiares confrontam naturalmente as crianças com pequenos desafios que exigem criatividade e resiliência: algo que não corre como foi previsto, um erro que precisa de ser corrigido, um plano que tem de ser reinventado. É nestes momentos que nasce a capacidade de resolver problemas, considerada hoje uma das competências mais decisivas para o futuro. Por aqui, acreditamos profundamente que educar é preparar para a vida – e que a vida começa nos gestos simples, repetidos diariamente, cheios de significado. Quando damos às crianças e jovens a oportunidade de participarem ativamente na vida familiar, estamos a dar-lhes muito mais do que tarefas: estamos a oferecer-lhes espaço para crescer, experimentar e descobrirem as suas capacidades. Cada pequeno gesto dentro de casa é uma semente plantada para formar pessoas adultas mais competentes, equilibradas e preparadas para enfrentar os desafios do mundo do trabalho.
Fontes: Teoria Sociocultural de Vygotsky; Teoria do Desenvolvimento de Erickson; Teoria da Aprendizagem Social de Bandura; Teoria do Desenvolvimento Moral de Kolberg; Teoria Ecológica do Desenvolvimento de Bronfenbrenner e Montessori.