Sabia que... No norte de Portugal, sobretudo na zona raiana, o bacalhau dá lugar ao polvo na mesa de Consoada. Salazar tentou travar a tradição para proteger a frota bacalhoeira, mas o povo sempre arranjou maneira de fazer chegar ao prato o tesouro que vinha da Galiza. Esta história fala de contrabando, de fronteiras, de resistência.«O polvo é um produto de alta qualidade e sempre esteve reservado para ocasiões especiais.»
A proximidade da Galiza, coração mundial da pesca de polvo, fazia que ele estivesse presente no território há séculos e entrasse na dieta das gentes da fronteira muito antes do bacalhau. «Com isto tornou-se um produto identitário da raia, imune às tentativas de reconversão que lhe tentaram fazer.»
O bacalhau da consoada não é, em boa verdade, uma tradição assim tão antiga. No final dos anos trinta, depois da Guerra Civil Espanhola e de uma tremenda escassez de alimentos nos dois lados da fronteira, o Estado Novo quis ordenar o abastecimento alimentar do país para travar a fome.
«Salazar definiu zonas e produtos: cereais no Alentejo, sardinha nos portos pesqueiros, hortícolas e frutícolas no Oeste. E investiu seriamente na frota bacalhoeira, capaz de trazer das águas frias do Norte um ingrediente barato e altamente duradouro», continua o investigador. «Nessas contas, o polvo, que vinha essencialmente de Espanha, não tinha lugar.»
Há em Melgaço um museu chamado Memória e Fronteira onde se presta homenagem às décadas em que a passagem para Espanha era atividade furtiva. Ao contrabando, mas também à emigração. Os arquivos das apreensões pela Guarda Fiscal estão ali guardados – e basta olhar para os registos para perceber como o polvo era importação da quadra.
Se no resto do ano as autoridades confiscavam essencialmente cobre, café e azeite, nos dois últimos meses do calendário a listagem destaca o molusco.
Nas aldeias de Melgaço toda a gente conta a mesma história. O polvo chegava seco e pendurava-se atrás da porta. Dois dias antes do Natal juntava-se o mulherio nas fontes e mergulhavam-no na água. Depois, era agarrá-lo pela cabeça e batê-lo numa pedra, pelo menos cinquenta vezes. «A congelação permitiu quebrar os tendões do polvo sem esforço, mas antigamente era preciso fazê-lo à força dos braços. As mulheres da Galiza e do norte de Portugal eram duras. Tinham de ser!»
Apesar de a quantidade de polvo pescado ter sofrido uma redução nas últimas décadas, o aquecimento da temperatura das águas tem sido benéfico para a população de polvo. Um estudo da revista Science diz que as alterações climáticas estão a reduzir os ciclos dos oceanos, fazendo que os polvos se reproduzam mais rapidamente. Por outro lado, com a pesca intensiva que existe em algumas regiões do globo, o animal está a ver desaparecer muitos dos seus predadores, o que faz aumentar a população da espécie. A sobrepopulação de polvo pode criar um desequilíbrio na fauna marinha. Como se alimentam essencialmente de crustáceos, o excesso de octópodes no oceano está a ameaçar as reservas mundiais de marisco.
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