Intervir nas famílias é investir no futuro e no fortalecimento das comunidades. Apoiar o exercício da parentalidade significa ajudar pais e mães a promover a realização de todo o potencial das suas crianças, o que se traduz na capacitação da próxima geração.
Há evidência – reconhecida pela OMS, UNICEF e Conselho da Europa – de que os programas de intervenção na parentalidade contribuem para a redução de práticas parentais inadequadas e de violência contra as crianças e promovem a saúde mental e bem-estar das crianças e dos/as adultos/as.1
Mas o sucesso destas intervenções depende não só das características dos programas e da qualidade da sua implementação, mas também do envolvimento das famílias. Realizada a avaliação, identificados os problemas e definidos os objetivos de mudança, o envolvimento vai traduzir-se na presença assídua nos momentos de intervenção e na participação ativa, que vão conduzir à mudança comportamental nas práticas parentais e, consequentemente, observam-se os resultados esperados nas crianças. Desta forma, o ciclo é reforçado e mantém pais e mães envolvidos/as no processo de mudança2.
No entanto, devido a uma multiplicidade de variáveis – que podem ir desde o desemprego ou dificuldades socioeconómicas aos desafios na conciliação trabalho-família, a problemas de saúde mental e/ou física ou ao facto de se ter várias crianças a cargo – as famílias podem manifestar recusa aberta ou resistências veladas à intervenção. E isto pode tornar-se num desafio quando – por força de decisão judicial – a intervenção é imperativa.
Sustentadas por insucessos anteriores, emocionalidade negativa (medos, raiva, menosprezo…), perceções pessoais sobre a situação, ausência de crença ou medo da mudança ou mesmo alimentadas pelas resistências das/os profissionais ou pela relação estabelecida3, as resistências das famílias devem ser atenuadas com vista a garantir o sucesso da intervenção.
E é neste aspeto que a “conversa” pode mudar tudo. A atitude e posicionamento do/a técnico/a podem determinar se as famílias “baixam a guarda” e se envolvem no processo de transformação ou se reforçam o “estado de alerta” e resistem à intervenção. Vários trabalhos científicos4,5,6 salientam a importância da relação entre profissional e família no êxito da intervenção, destacando particularidades como a confiança e a cooperação.
Intervenções técnicas pautadas por posturas de compreensão, estratégias de escuta ativa, clarificações ou paráfrases frequentes das perspetivas da família, empatia, reconhecimento da dificuldade em mudar padrões sistemáticos e enraizados e foco discursivo no objetivo de mudança e na solução do problema têm sido apontadas como intervenções eficazes face à resistência parental. Adicionalmente, adotar um modelo de participação guiada, apresentar sugestões (em vez de prescrições ou obrigações), explicar claramente o racional por trás da prática, encorajar o desenvolvimento de objetivos ligados a tarefas concretas e a auto-monitorização e recordar o foco no desenvolvimento da criança complementam o leque de estratégias para minimizar as resistências e potenciar o envolvimento no processo de intervenção3.
Fontes:
1. Altafim, Elisa & Linhares, Maria Beatriz (2016). Universal violence and child maltreatment prevention programs for parents: A systematic review. Psychosocial Intervention, 25(1), 27–38.
2. Piotrowska, Patrycja, Tully, L., Lenroot, R., Kimonis, E., Hawes, D., Moul, C. Amderson, V. e Dadds, M.R. (2017). Mothers, fathers, and parental systems: a conceptual model of parental engagement in programmes for child mental health - connect, attend, participate, enact (CAPE). Clin Child Fam Psychol Rev, 20(2), 146-161. doi: 10.1007/s10567-016-0219-9.
3. Canário, Ana Catarina (2026, maio). O poder da escuta: chegar a famílias que já não acreditam. 32.ª Jornadas GAF, Viana do Castelo.
4. Buckley, Helen; Whelan, Sadhbh; Carr, Nicola; & Murphy, Cliona (2008). Service users’ perceptions of the Irish Child Protection System. Dublin: The Stationery Office.
5. Dale, Peter (2004). Like a fish in a Bowl: Parents’s perceptions of child protection services. Child Abuse Review, 13, 137-157.
6. Ribner, David & Knei-Paz, Cigal (2002). Client’s view of a successful helping relationship. Social Work, 47(4), 379-387.
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