Sabia que, afinal, não há emoções universais? Lisa Feldman Barret, investigadora e psicóloga na área das neurociências, avançou recentemente, fruto de mais de três décadas de estudo, uma hipótese ousada: as emoções não são universais. De facto, as emoções parecem reflexos automáticos, circuitos pré-programados para reagir a determinado estímulo, inscritas nos genes, apuradas pela evolução, partilhadas por toda a espécie. Há neurónios que se activam quando sentimos medo, outros que se activam quando sentimos nojo, outros quando sentimos raiva, ou alegria, ou tristeza e esses circuitos são visíveis através de instrumentos específicos, certo? Não. Errado. Não há suporte científico para esta ideia, embora muito se tenha procurado.
O que Lisa Barret descobriu, todavia, foi o seguinte: se o cérebro é um sistema de predições, também as emoções são palpites. Prever é uma função basilar do cérebro, a base de qualquer acção que tomamos. Para estas previsões, o cérebro utiliza experiências passadas semelhantes. Isto permite-nos perceber o mundo e agir sobre ele rápida e eficazmente. O nosso cérebro não reage ao mundo; através da experiência acumulada, prevê e constrói a nossa experiência do mundo. Com efeito, também as emoções – e a capacidade de as reconhecer nos outros – são construídas in loco, através de milhares de células trabalhando em conjunto, com base nas aprendizagens culturais e nas experiências de vida. Pode-nos parecer que as emoções são coisas que nos acontecem, que o nosso cérebro tem pré-progamado alguns circuitos emocionais, mas não existem circuitos emocionais no cérebro. Então as emoções não são reais? São. Mas não no sentido em que as moléculas ou os neurónios são reais. São reais no sentido em que o dinheiro é real: um produto do acordo entre seres humanos quanto à sua existência.
Se isto não lhe faz sentido, descanse. Também a nossa neurocientista afirmou: “se eu não fosse cientista e não tivesse décadas de experiências com resultados consistentes, também não acreditava”. Eis umas das mais belas características da Ciência: rege-se por factos, ainda que muitas vezes estes desafiem a intuição.
Para quem ficou curioso, pode assistir à
Ted-Talk You aren’t at the mercy of your emotions – your brain creates them – ou ler o seu livro How Emotions Are Made: the secret life of the brain.
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